sexta-feira, 7 de março de 2014

Avô Materno

Foi à seis anos (se estiver correta) que este meu sonho pelo violino nasceu. A convivência com o meu avô materno, durante os dezanove anos da minha existência, fez-me perceber que o sonho dele se estava a tornar também no meu sonho: ter alguém na sua descendência que seguisse música e tocasse violino como ele tocou em tempos...
Só uma neta o fez, EU! Ao estar sempre presente no seu dia-a-dia, ao ver como ele gostava do que fazia, de como tocar violino lhe enchia a alma, quis sentir o mesmo, quis aprender e fazer com que ele tivesse orgulho em mim. Sabem que mais? Consegui fazê-lo... de certa forma ele sempre teve orgulho de mim...
Lembro-me que nas férias de verão eu vinha para a sala ajudá-lo a montar puzzles, ele adorava principalmente os de 1000 peças. Lembro-me de lhe fazer lanches com bolos, rodelas de chouriço, torradas, queijo, bolachas, tudo o que tínhamos eu usava para os nossos lanches. Lembro-me que ele ia para o meio dos vasos, coisa que adorava, punha-se a arranjá-los desde regar a tirar as ervas daninhas. Lembro-me ainda que chorei muito no colo dele, quando a minha avó se encontrava no hospital ou quando algo me corria mal, sempre foi ele que conseguiu entender-me e ajudar-me. Lembro-me do seu sorriso, do seu riso, das histórias que contava de quando era criança, das palavras doces, das palavras amargas, da ajuda que pedia, da ajuda que dava. Lembro-me de caminhar com ele, ir ao dentista, ao posto médico. Lembro-me sobretudo dos dias em que ele dizia ás pessoas de fora "Esta é a minha netinha mais velha" com um tom de enaltecimento na sua voz!
Adorava quando nós os dois éramos tão próximos e não digo apenas proximidade de estar todos os dias com ele ou de falar muito com ele, mas também do facto de ambos termos muitos assuntos para falar e acima de tudo de termos uma relação avô-neta tão cheia de vida...
Tenho saudades, sim posso dizer que sinto saudades, dos dias em que me pedia para lhe pôr gel no cabelo (não que ele o tivesse), tenho saudades dos dias em que logo as 8:30 saímos de casa para ir a uma consulta, sinto saudades de ouvir o som da sua muleta a tocar no chão, sinto saudades de quando ele me dava a sopa na boca, sinto saudades do tempo passado que sei que nunca voltará e quando te fores nada disto será igual. O tempo é matreiro. É tão matreiro que não é capaz de esperar um minuto para que eu consiga recordar tudo o que passei contigo meu avô. É tão matreiro que eu não sei se vou ser capaz de viver um dia de cada  vez enquanto ainda estás entre nós. No entanto sei de uma coisa, sei que apesar do tempo passar e não dar tréguas eu vou ser capaz de viver o resto da minha dizendo: "Fui feliz e aprendi coisas grandes com a pessoa que me ensinou muito sobre a vida, o meu avô materno!"