Quando estamos dispostos a ajudar alguém porque será que
esse alguém nos tem de impor algo? Quando pomos as divergências de lado e
ajudamos porque será que no final saímos sempre de cabeça baixa? Como se alguém
nos tivesse dado porrada sabem? Tentar ajudar é fazer sem pedir nada em troca,
mas parece que hoje em dia ajudar é mais que fazer algo pelo outro, é fazer
algo que o outro nos impõe e isso está completamente incorreto!
Vou escrever uma pequena história, onde duas melhores amigas
estavam sempre a ajudar uma à outra, até que um dia uma delas excede,
ultrapassa a barreira imposta pela melhor amiga e a amizade é posta em causa.
“Tudo começou na tarde em que se conheceram. Depois das
aulas a Joana ia fazer voluntariado numa instituição onde se encontravam
crianças abandonadas, ia super carregada de sacas, cheias de surpresas para elas
quando embateu contra algo ou contra alguém.
- Ei, vê por onde
andas!
- Desculpa, não te
vi, estava distraída a pensar como vou conseguir chegar à instituição se estou
completamente cheia de sacos e mal consigo andar.
- Queres ajuda? É
para a instituição A casa do caminho?
- Sim é, obrigada
pela gentileza e peço novamente desculpa. Já agora sou a Joana e tu?
- Carolina, muito
gosto. Não tem mal, eu também devia ter tomado mais atenção.
Assim começaram a conhecer-se e a agir de forma bondosa uma
relativamente à outra, na instituição trabalhava a tia de Carolina e esta achou
estranha a presença da sobrinha, mas viu que à medida que os dias passavam ela
continuava a lá ir e com bastante frequência.
Passaram meses, anos e as meninas continuavam a ir à
instituição alegrar de alguma forma as crianças que lá estavam, nada as fazia
mais feliz. Havia sempre ajuda para prestar tanto da parte da Joana como da
Carolina, tornaram-se grandes amigas e fortaleceram a amizade até ao dia…
- Carolina podes
ajudar-me com os sacos?
- Sim claro. – Quando
ambas chegaram à instituição a Joana percorreu os corredores daquele meio que
já conhecia tão bem e foi para a sala das crianças que ajudava enquanto que a
carolina foi ter com a tia.
- Tia estou farta. A
Joana só me pede ajuda para fazer isto ou aquilo, não aguento mais. Será que
ela não percebe isso?
- Querida sobrinha,
porque não falas com ela em vez de nas costas falares mal e achares que ela só
te explora? Falem, vocês são grandes amigas, não podem perder tal grandeza só
porque ela te pede um favor ou outro. Ajudar o outros é importante
principalmente sem pedir nada em troca.
- É isso, vou falar
com ela, obrigada.
Assim fez, quando chegou perto da melhor amiga puxou-a até
ao canto da sala onde ninguém as ouviria e começou:
- Estou farta Joana,
não aguento mais que passes a vida a pedir-me ajuda.
- Que se passou
Carolina? Não te fiz mal nenhum, peço-te ajuda porque desde sempre o fizeste e
agora estás a descarregar em mim?
- Simplesmente estou
farta que te tenha de ajudar e tu nunca fazes nada do que quero…
- Ah? Eu ajudo
naquilo que posso tu sabes bem disso.
- Não sei não, se
realmente fosses minha amiga emprestavas-me dinheiro para comprar o telemóvel
que tanto quero, ou então ficávamos em casa em vez de virmos para esta
espelunca!
- Não achas que seria
de mais eu dar-te dinheiro para comprares um telemóvel? Ou ficar em casa ao
invés de vir para este lugar onde me sinto bem? Em ajudar da forma que mais
sei? Dando afeto!
- Só ligas para estas
criancinhas, elas não tem pais? Ninguém? Que se cuidem eu faria o mesmo…
- Achas que farias? Tu
é que sabes não estou para isto. Se achas que ajudar passa por realizar os teu
caprichos estás muito enganada, ajudar é mais do que fazer o que tu me pedes
como o dinheiro, ajudar é dar algo de ti que sabes que podes dar e não algo que
não conseguirás dar. Já sei que se te emprestasse o dinheiro nunca mais mo
davas e eu não tenho tal quantia sabes bem disso. Ficar em casa num dia tão
bonito? A fazer? Jogar computador? Não, prefiro ter uma tarde mais interessante
e divertida do que estar em frente a um ecrã sem fazer nenhum!
- Como queiras. Que
grande treta. Vou- me embora!
Viraram costas uma à outra, a Joana continuou a sua tarde e a
Carolina foi para casa jogar computador. A última percebeu que queria sair de
casa, tentar viver sem a ajuda de ninguém, levou apenas umas roupas e alguma
comida para essa noite, mas nos dias seguintes apercebeu-se que realmente era difícil
viver daquela forma, sem a ajuda da amiga, dos pais, de quem mais amava. «Ela
tinha razão, aquelas crianças assim como eu nunca conseguiriam viver sem que
alguém as ajudasse, fui egoísta, só pensei naquilo que queria. Será tarde
demais?»
Dirigiu-se até à instituição e procurou a sua melhor amiga,
encontrou-a na cozinha sozinha e a chorar.
- Joana? Estás bem?

- Não. Perdi a minha
melhor amiga porque ela foi egoísta e não me ouviu. Saiu de casa, anda na rua
desamparada e não sei que fazer… Mas… - Olhou para cima e viu que a pessoa com
quem estava a falar era a melhor amiga. Mais velha, mais triste, com menos
vida. Correu para abraçá-la. – Onde andavas? Estávamos muito preocupados
contigo.
- Decidi que queria
viver sem a ajuda de ninguém, mas percebi que não era capaz porque sem a
família e amigos não sou nada e tenho de viver ajudando e sendo ajudada nas
medidas certas.
- Estou contente que
tenhas percebido isso. Agora anda. Vais tomar um bom almoço, um bom banho e
ajudar-me com aqueles pestinhas, estão cheias de saudades tuas. – Sorrindo
abraçou-a mais uma vez.”
Tentei de alguma forma retratar a sociedade em que estamos
inseridos. Que apenas pensam em si e não se importam se os outros sofrem ou
não. Preferem abusar da ajuda dos amigos do que ser tolerantes em certos
aspetos e não ajudam ninguém, mas que vida não? Ser ajudado em tudo, receber de
mão beijada muitas coisas e no fim não contribuir de forma nenhuma para ajudar
seja um amigo, irmão ou até mesmo um desconhecido.
Enquanto há pessoas que até dão mais do que podem há outros
que não dão nada e podem dar muito. Essas almas caridosas ainda salvam uma
sociedade destas. Irresponsável e insensível!